Abrahão Bahl 2011 Turismo-Cultural-e-Desenvolvim 7342, eBOOKS PDF em português
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//-->Vol. 22, n. 1, abril 201196Turismo Cultural e Desenvolvimento Includente: o caso de Paranaguá,Paraná, BrasilCultural Tourism and Includent Development: the case of Paranaguá, Parana, BrazilCinthia Sena Abrahão1Miguel Bahl2ResumoO artigo tem por objetivos discutir o potencial do turismo cultural para o desenvolvimento dascidades, considerando a perspectiva da inclusão e da sustentabilidade, bem como realizarreflexão sobre o caso da cidade de Paranaguá, no estado do Paraná (Brasil). A metodologiautilizada para o estudo foi baseada na revisão bibliográfica, associada à pesquisa iconográficae à análise de documentos históricos. Em termos de resultados, pode-se apontar o potencialefetivo para o desenvolvimento do turismo cultural em Paranaguá, tendo em vista seupatrimônio histórico e culturalmente preservado.Palavras-chave:turismo cultural; patrimônio material; desenvolvimento includente;Paranaguá (Brasil).AbstractThe article aim for discuss the potential of the cultural tourism for the development of thecities, considering the perspective of the inclusion and of the sustentability, as well as to carryout reflection on the case of the city of Paranagua, in the state of the Parana (Brazil). Themethodology used for the study was based on the bibliographical revision associated to theinquiry iconographic and historical analysis of documents. In terms of results, it is possible topoint to the effective potential for the development of the cultural tourism in Paranagua,based on historical and culturally preserved inheritance.Keywords:cultural tourism; material inheritance; includent development; Paranaguá(Brazil).1Bacharel em Economia pela Universidade Federal de Uberlândia, Mestre em História Econômica pelaUniversidade de São Paulo (USP) e doutoranda em Geografia pela Universidade Federal do Paraná (UFPR).Professora do curso de Gestão em Turismo e Gestão e Empreendedorismo (UFPR - Campus Litoral). Email:cisena@terra.com.br.2Bacharel em Turismo e Licenciado em Estudos Sociais e em Geografia pela Universidade Federal do Paraná(UFPR). Mestre e Doutor em Ciências da Comunicação (Turismo e Lazer) pela Universidade de São Paulo(USP). Professor do Curso de Graduação em Turismo e do Programa de Mestrado e Doutorado em Geografia(UFPR). Email: migbahl@ufpr.br.ISSN 1984-4867Vol. 22, n. 1, abril 2011971. IntroduçãoO turismo de base cultural tem se apresentado de forma cada vez mais destacada como umaalternativa para diversas cidades que possuem atrativos monumentais, artísticos, bem como decostumes e práticas sociais tidas como tradicionais. Isso permite afirmar que economia ecultura podem se entrelaçar na busca de novas alternativas de desenvolvimento3das cidades.Fita (2003, p. 83) demonstra como a cidade de Barcelona foi beneficiada, ao longo de umatrajetória centenária, por uma infra-estrutura que viabilizou implementar políticas culturaiscom vistas ao seu desenvolvimento urbano e social e que acabou também beneficiando odesenvolvimento do turismo.Ao pesquisar sobre a cidade de Paranaguá e sua formação territorial identifica-se que aespecialização na atividade portuária obstruiu ao longo do tempo a valorização da sua riquezapatrimonial e cultural expressa na configuração espacial, que se traduz em potencial turístico.A dependência econômica construída em função da atividade portuária, por sua vez, trouxeuma série de impactos ambientais e sociais que marcam a cidade.A riqueza produzida pela atividade portuária, no entanto, não é incorporada de forma plenapelos moradores da cidade. Desta forma, pode-se dizer que existe uma relação contraditóriafundamental entre porto e cidade, na medida em que todos os impactos depreciativos ficamretidos no espaço territorial da cidade, enquanto os positivos, em termos de geração de renda eemprego, o são apenas parcialmente.Martinelli (2003, p. 93), em sua reflexão sobre as “políticas culturais territoriais locais” naEspanha mostra como a experiência da segunda metade do século XX foi capaz de evidenciarque não é possível produzir desenvolvimento, na perspectiva da garantia e expansão do bem-estar da população, se a perspectiva cultural for subjugada. “As políticas culturais locais[podem] fomentar a recuperação das identidades culturais locais e territoriais. É precisodesenvolver em cada população a auto-estima, a valorização daquilo de que dispõem emtermos de cultura” (MARTINELLI, 2003, p. 96).A conjuntura política, econômica, bem como os marcos legais contemporâneos, possibilitamrever as configurações das cidades e dar visibilidade aos seus potenciais turísticos, apontando3Na perspectiva de Ignacy Sachs (2004), o termo desenvolvimento passa a requerer a capacidade de gerar edistribuir riquezas, assumindo o caráter da inclusão da população.ISSN 1984-4867Vol. 22, n. 1, abril 201198para novas perspectivas em termos de prospecção do desenvolvimento. Transformá-los emfundamento para o desenvolvimento com foco na inclusão social da população residentenestas cidades e no que as circunda, representa um desafio considerável. As experiências dedesenvolvimento baseadas no potencial cultural, especialmente no turismo cultural,demonstram capacidade de estimular o surgimento de empreendimentos e empregos criativos,que possibilitam aos jovens trabalhar sob novas condições.O objetivo deste artigo é refletir sobre o potencial turístico cultural do município deParanaguá, litoral do Paraná (Brasil), cujo processo de ocupação e constituição citadinaremonta ao século XVII. Acredita-se que tal discussão possa subsidiar a problematização daproposição de um turismo sustentável e includente presente nas políticas públicas atuais.Deve-se ressaltar que a cidade de Paranaguá contemporaneamente passa a ser contempladapor políticas federais calcadas nesta perspectiva.A pesquisa teórica que subsidiou a análise para a elaboração deste trabalho se baseou em umprocesso de revisão bibliográfica, bem como na análise documental, tendo sido organizadatextualmente em quatro tópicos. No primeiro tópico, destaca-se o patrimônio histórico dacidade de Paranaguá, buscando revelar os testemunhos que nele estão contidos; o segundoremete ao potencial para o turismo cultural, bem como os diferenciais que esta modalidade daatividade turística pode propiciar, no sentido do desenvolvimento da cidade; no terceiro tópicofaz-se um destaque para a Ilha do Mel, como atrativo consolidado do município, buscandoarticulá-la ao contexto mais geral da cidade; e, por fim, faz-se uma alusão às possibilidadesque se abrem com a escolha de Paranaguá como um dos 65 destinos turísticos indutores dodesenvolvimento no Brasil, a partir do Plano Nacional de Turismo - 2007/2010 (BRASIL,2006).Em termos de apontamentos finais, buscou-se discutir a urgência e relevância doplanejamento para que a atividade turística possa de fato vir a contribuir para odesenvolvimento da cidade. Desta forma, subsidia-se a geração de novas perspectivas para asolução dos inúmeros problemas sócio-econômicos e ambientais que são vivenciados nocontexto da cidade de Paranaguá.ISSN 1984-4867Vol. 22, n. 1, abril 2011992. Paranaguá: o patrimônio como testemunha da históriaSegundo Silva (s/d), o conceito clássico de patrimônio, sob o qual ficam englobadas asheranças do passado que são transmitidas às gerações futuras, expressa a consolidação dasmanifestações culturais humanas. E mais, representam na verdade, um conjunto de escolhasrealizadas por um grupo de indivíduos. Constituem uma expressão espaço-temporal devalores culturais selecionados por grupos humanos. Através destas escolhas, portanto, podem-se construir identidades, dar sentido de existência e de pertencimento.Conforme Meneses (2004), o patrimônio representa uma herança viva, que não se reduz auma peça expositiva, ao conjunto das lembranças curiosas. Construções culturais expressam,por assim dizer, um edificado de significações, estejam elas materializadas no espaço ouapresentem caráter subjetivo.Figura 1 – Foto: Paranaguá histórica. Autor desconhecido. S/d.Fonte: Acervo do Instituto Históricogeográfico de ParanaguáA cidade de Paranaguá fica situada defronte da extremidade ocidental da Ilhada Cotinga, a algumas centenas de passos da Foz de um pequeno riodenominado Rio de Paranaguá e um pouco acima dele.Quando se chega a Paranaguá, vindo do interior, onde a maioria das casasdas vilas e arraiais são feitas de barro, o que chama a nossa atenção é vertodas as casas e todos os prédios públicos feitos de pedra.A cidade se compõe de algumas ruas que se estendem paralelamente ao rio esão cortadas por outras de pequena extensão. As primeiras são geralmentelargas e bem alinhadas; ninguém se deu ao trabalho de pavimentá-las, e noentanto elas jamais se mostram barrentas, já que o terreno ali é muitoarenoso.De um modo geral elas parecem bem cuidadas, mas quase todas têm apenasum pavimento.ISSN 1984-4867Vol. 22, n. 1, abril 2011100A cidade conta com três igrejas, a paroquial e mais outras duas de menorimportância. A primeira, dedicada a Nossa Senhora do Rosário, é maisampla do que a maioria das que eu já tinha visto no Brasil. (SAINT-HILAIRE, 1978, p. 99).O relato do viajante naturalista Auguste Saint-Hilaire, que visitou o Brasil no início do séculoXIX traduz as impressões obtidas em sua passagem na década de 1820 pelas províncias do suldo Brasil, quando esteve no litoral do Paraná. Merece destaque o fato de que a descrição éreveladora das marcas arquitetônicas de uma vila importante, no período em questão.Contemporaneamente, a parcela preservada destas marcas traduz um fragmento do patrimôniocultural da cidade.O conjunto arquitetônico da cidade passa a representar o elo espaço-tempo, um contraponto àlógica moderna que impõe a mudança permanente. A relação de estranhamento passa acompor o ambiente, na medida em que a lógica dialética de imposição do modelo de mudançapermanente teima em desconstruir a identificação com o passado que perpetua a tradição(SILVA, s/d).Embora o primeiro núcleo urbano de Paranaguá tenha sido organizado no século XVI emfunção da exploração aurífera (LICCARDOet al.,2004), não há registros que sustentem suaimportância econômica ao longo dos séculos seguintes, até o momento do relato de Saint-Hilaire. A exploração de ouro foi efêmera e incapaz de justificar uma atenção efetiva daadministração colonial, e da mesma forma as atividades que a sucederam. Então, o que teriajustificado que chegasse ao primeiro quartel do século XIX com marcas espaciais tão bemestruturadas e imponentes, a ponto de impressionar um viajante, que havia visitado as cidadesmineiras, portadoras da herança do ciclo minerador do século XVIII?O peso do Brasil na sustentação do império lusitano setecentista, associado à ascensão deSebastião José de Carvalho e Melo, o Marquês de Pombal, ao cargo de Primeiro Ministro doreinado de Dom José I, constituíram elementos essenciais para as políticas territoriaisexecutadas ao longo dos 27 anos em que dirigiu o império (COUTO, 2003). A posiçãogeográfica estratégica de Paranaguá, por sua vez, possibilitou que se constituísse como umdos núcleos urbanos beneficiados pelas políticas pombalinas de ocupação e defesa dosterritórios de fronteira.ISSN 1984-4867
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